terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O Espelho dos Encantados - Inicio

(O contador de histórias vestido de branco, sentado num trapiche com chapéu cobrindo o rosto. Som das águas corrente. Pega o violão e cantar)

Música - Uma noite / saía de canoa pelo rio
Do norte soprava um vento frio
E no silêncio de um remanso a gente ouviu
Um choro triste
Com um quê de solidão
De partiu meu coração
Por que choram as águas?
Por que choram as águas?
Fiquei a me perguntar
E o canoeiro me contou uma história.

Musico - (Põe o violão de lado e falar) E começou mais ou menos assim:

(Black-Out. Som de pássaros e água em movimento)

Voz em off - Sabe moço! A muito tempo vivia nessas águas, um jovem nativo, conhecido como o líder dos encantados. Um dia ele estava a beira do magnifico espelho fazendo os preparativos para o período dos enamorados das águas doces, quando a apareceram por lá a princesa Uau-mari e sua amiga, mesmo confuso diante da inesperada visita, ele as recebeu com um sorriso dizendo:
O encantado – Que perfume maravilhoso! Quem são as inspiradoras belezas que refletem nos encantos do meu espelho?
A princesa - Sou Uau-mari, a princesa das amazonas, e está é minha amiga Uau-lú.
O encantado - Ouviste-me primavera! São as flores mais belas! Finalmente enviastes a mim.
A princesa - E quem é você?
O encantado - Não é uma pergunta muito fácil de responder, Princesa. Mas... Entre outras coisas, sou conhecido como o líder dos encantados.
A princesa - Então és tu o irresistível conquistador de quem nos falam as nativas!... O apaixonante inspirador dos encantados das águas doces?
O encantado - Acho que estamos fora do período dos encontros sagrados, princesa!
A Princesa - Estamos! Majestoso.
O encantado - Sabe que é proibido as nativas passearem deste lado do rio, fora do período!
A princesa - Não és o inconquistável! Por um acaso sentis ameaçado com nossas frágeis presenças?
O encantado - Pelo contrário! É uma surpresa agradável; é um prazer ter a luz dos seus belos olhos iluminando-me no aconchego deste espelho.
A princesa – Então é em ti que os encantados buscam inspirações para os seus maravilhosos galanteios!
O encantado – Não minha pequena. As fontes de nossas inspirações estão agora diante de mim. Mas diga-me! O que as traz aqui, fora do período sagrado?
A princesa - A curiosidade de encontrar um encantado, e ver como se comportam antes do sagrado período dos acasalamentos.
O encantado - Não precisava vir até aqui, princesa! Vossa rainha podia lhe dá essa informação.
A princesa – (Demonstrando certa surpresa) Não me diga!
O encantado – A beleza que enfeita o teu castelo tem detalhes que as nativas desconhecem, minha princesa. Sabe como nos dá prazer sem infringir os compromissos sagrados de nossas tribos. Pergunte a ela o que fazer com um encantado fora do período sagrado que ela dirá a você. E eu terei prazer em dividir com você os pormenores prazerosos permitidos aos encantados nos leitos do espelho sagrado.
A princesa – Eu gosto de ver as coisas com os meus próprios olhos, majestoso! Acho que essa é uma boa oportunidade para mostrar a minha amiga Uau-lú, que os encantados não são tão elegantes como ela imagina. Que são vulneráveis aos nossos encantos femininos, que não teem nada de inconquistáveis, como decantam os narradores de suas proezas poéticas amorosas.
O encantado - Me pareces segura do que estais dizendo!
A princesa - Estou majestoso!
O encantado - Em que te apóias para fazer tal afirmação?
A princesa - Em alguns inusitados acontecimentos que nos envolve, meu venerável líder.
O encantado – Posso saber ao que te referes?
A princesa - Por exemplo, já te vi na beira do rio, me flertando de forma discreta e desejosa, fora do período sagrado.
O encantado - Pois bem! Estamos num lugar mágico. Aproveite! És livre para dirimir duvidas, relembrar eventos significativos que forem do seu agrado. Vou sentir-me honrado se puder esclarecer alguma coisa que por ventura tenha posto em duvida o comportamento dos encantados.
A princesa - E como podes fazer isso?
O encantado – Passeia um pouco nos mistérios do meu espelho. Mergulhe comigo nas águas sagradas que compartilharemos do que desejares. Garanto que posso realizar o mais amável dos teus sonhos.
A Amiga – (Pegando na mão da princesa) Não faça isso Princesa! Ele vai encantá-la!
A Princesa – (virando-se para a amiga) Não há o que temer Uau-lú. Eu sei lidar com esses românticos bajuladores de beira de rio.(Soltando a mão da amiga)
O encantado – Então, viva o reino das águas! Temos uma deusa nos visitando.
A princesa - Viva! E espero que os mistérios do teu espelho, espelhe as verdades intimas que põem em duvida tua fama, de respeitoso majestoso.
A Amiga - Não vá se arriscar, princesa! Tu não conhece esse jovem. Existem histórias muito estranhas a respeito deste espelho.
O Encantado – (Virando-se para amiga sorrindo) Estou encantado! Tens uma sábia prudente em tua companhia. (Virando se para a princesa) Mas és livre como a brisa que embala as flores. Será um prazer vê-la passeando na beleza dos meus encantos.
A Amiga – Não dê ouvido a ele, princesa! Vamos embora, não temos nada para fazer aqui!
O Encantado – (Olhando para a princesa) Escuto a voz da razão ao teu lado... Mas sinto-me envaidecido por propor-me a cumplicidade de partilhar suas nobres lembranças comigo, alteza.
A princesa – (com um sorriso no rosto) Está vendo Uau-lú ! Os encantados são todos iguais, usam sempre essa postura romântica insinuante para nos agradar. O majestoso não sabe quais momentos pretendo relembra-lo. Se soubesse, com certeza mudaria essa pose de irresistível conquistador!
O Encantado – (Sorrindo) Pelo sorriso em seu rosto, acredito que tens lembranças agradáveis da minha pessoa. Será um prazer ouvi-la.
A princesa - O prazer será todo meu, majestoso.
O encantado – Então, não se acanhe! Quero sentir-me acariciado por tuas doces recordações. Envolvido por esse manto de estrelas que brilham em teus olhos quando sorri.
A amiga – (Tapando os ouvidos) Por favor, princesa! Não fomos trazidas aqui pelas nossas pernas, foi à força dos encantos dele que nos atrai até aqui.
A princesa – Não te preocupes com isso Uau-lú, eu sei onde estou pisando. (Virando-se para o jovem líder) E então, meu jovem encantado! Sou livre para pormenorizar, ou guardo em segredo certos detalhes reveladores dos teus rotineiros flertes?
O encantado - Antes de qualquer coisa, minha princesa. É bom que saibas que para cada encantado que nasce, nasce uma deusa encantada em tua tribo, que já vem predestinada a atraí-lo; desperta-lo para o mundo mágico dos relacionamentos amorosos. Para despertar curiosidades. Curiosidades que vem do impulso instintivo infantil que existe dentro de cada um de nós. Que é o mesmo instinto que fez com que de vez em quando soltasse tuas saudáveis meninices sedutoras para deleite desse jovem encantado.
A princesa – Interessante tuas providenciais precauções discursiva, majestoso! Pelo jeito sabes do que vamos falar. E com certeza essa aparente inocência angelical irá por água abaixo diante dos fatos singulares que nos envolve.
O encantado – Está se referindo as tuas graciosas meninices que me levaram a perceber as particularidades sutis que fazem parte do encantado universo feminino. Venha! Mergulhe nos mistérios do meu espelho! Garanto que ficaras satisfeita com o que te espera.
Amiga – (Um pouco nervosa) Princesa! Por favor, não! Ele vai encantá-la! Conheço as artimanhas dos encantados como a palma de minhas mãos.
A princesa – Calma Uau-lu! Quero saber em que particularidades dos nossos universos caminha o nosso jovem encantado.
O encantado - As fêmeas têm seus dengos, minha princesa. Suas manhas, teem por hábito nos chamar a atenção executando certas encenações exibicionistas, aparentemente despretensiosas. Que me fizeram descobrir as maravilhosas particularidades de que lhe falo.
A princesa - Por exemplo?
O encantado - Por exemplo, descobrir que o ser feminino já nasce com o divino dom de embeleza-se, que sentem prazer em sentirem-se atraentes, desejadas. E enfeita-se é um de seus hábitos prediletos; um ritual sagrado que realizam diariamente; adoram vesti-se de forma elegante e confortável, buscam harmonias de tons primaveris, assim como fazem as árvores que brotam seus botões de flores, recheando de beleza e perfumes os ambientes por onde se movimentam com esmero.
A princesa - Tenho que admitir! Tens uma lábia perigosamente envolvente, majestoso. Mas navegas num trecho de muitos remansos, e mesmo que sejas o e irresistível conquistador do reino das águas, sabes que podes ficar preso num desses remansos.
O encantado - É sempre um prazer rodopiar... Balançar nos banzeiros de aventuras que nos proporcionam os misteriosos rios femininos, são adoráveis as sutilezas dos toques macios que nos acariciam. Agradeço aos céus pelas preciosas correntezas que naveguei nesse caminho.
A princesa - Gabar-se como se nunca tivesse sido visgado por uma bela fêmea. Mas não podes negar que já atrai os teus olhares desejosos, buscando contemplar minhas dadivosas formas femininas, majestoso! Tu sabes onde moro!
O encantado – Eu sei. E faltaria com a verdade se não dissesse que são incomparáveis as belezuras que te compõem.
A princesa – (Tom irônico sorrindo) É mesmo?
O encantado – Sim!Tens um magnetismo particularmente especial, princesa. Teus lábios são como deliciosas fatias de frutas num convidativo e tentador pomar de delicias; és a porção do mais puro mel que tenho prazer de saborear em meus solitários sonhos. Claro que já atraistes meus olhares com teus movimento elegantes. Com essa dança de cisne num espelho d'agua estrelado, que tu tens.
A princesa - Negas que já me viu em momentos um tanto mais íntimos!?
O encantado – O que queres dizer, com “um tanto mais íntimos?
A amiga – (Se dirigindo até a princesa a pegando pelo braço) Princesa, pare com isso. Precisamos ir embora. Pelo amor que tens aos nossos sagrados lendários. Não faça isso! Vamos embora daqui.
A princesa - (Sorrindo virando se para a amiga e tirando a mão com a qual ela segura seu braço) Não tenho as fragilidades sentimentais de nossas nativas, Uau-lú. Estou aqui para desmistificar essa imagem de inabalável encantador do nosso majestoso encantado. E então, meu nobre líder!? Negas que já me viu um tanto quanto desprotegida de minhas vestes?
O encantado – Não. Eu não nego que tive alguns flertes acidentais de cenas belíssimas compostas por você; cenas que sempre vão existir, enquanto existirem fêmeas que se especializam em conduzir com sutileza e maestria, deliciosos espetáculos de seduções, que diga-se de passagem, são adoráveis quando recheadas por tuas belíssimas formas.
A princesa - Ao que te referes?
O encantado – A alguns dos detalhes que tens, que me levaram aos compartimentos secretos e confortáveis dos meus aposentos de fantasias, princesa.
A princesa – Posso saber do que estais falando!?
O encantado - É impossível negar que és saborosamente tentadora quando solta essa criança crescida que existe dentro de ti, buscando atrair a criança crescida e curiosa que existe dentro de mim. Disponho aos teus prazeres, todas as delicias que fizestes jorrar com teus espetáculos provocantes. Posso satisfazer os mais sublimes dos teus desejos.
A princesa - Tem um tom meio suspeito no que falas. Mas será um prazer te sentir me saboreando no aconchego dos teus sonhos. Se é que isso é possível nesse lugar.
O encantado – Aqui tudo é possível.Minha, princesa.
A amiga – Ah! Pelos nossos lendários, princesa. Não faça isso, será o fim. A rainha não vai me perdoa por ter vindo aqui com você.
O encantado - Dentro dos encantos desse espelho, os desejos mais ardentes não podem ser reprimidos.
A princesa - Que bom! Então vamos ver o quanto resisti aos meus dotes de criança tentadora.
A Amiga - Ah! Minha mãe das águas!! O que foi que eu fiz! Por favor, princesa! Vamos embora.
O encantado – É bom que saibas que algumas de tuas peças intimas podem ser expostas neste ritual sentimental, princesa.
Amiga – Princesa! Por favor, não! Não foi pra isso que viemos aqui. Majestoso nos perdoe a invasão do ambiente sagrado. Não faça nada que possa deixar nossa princesa em situação embaraçosa. Ela é só uma criança crescida, brincalhona.
A princesa – (Se voltando para sua amiga) Eu sei me defender Uau-lu! E para o seu governo, eu sei o que estou fazendo. No momento não preciso do teu nervosismo. (Se voltando para o jovem encantado) Quero lhe fazer uma perguntinha, majestoso!
O encantado - Quantas quiseres.
A princesa - Lembras da janela da minha casa na beira do riacho?
O encantado - Sim, e jamais poderia esquecer. Tenho boas e maravilhosas lembranças de tudo que vi através dela.
A princesa - Satisfaça a minha curiosidade. Me responda com sinceridade! Algum dia já me viu vestida em trajes menores, ou vestida com algumas de minhas confortáveis peças transparente? (Sorrindo) Seja sincero!
O encantado - Claro que sim! E estou sendo sincero. Enebria-me a pureza da vontade que enfeitas com esse sorriso que usas para esconder tuas intimas intenções. Estais procurando o prazer que toda fêmea procura. És como um bichinho manhoso ronronando buscando um colo para sonhar acordada, princesa. Quero vê-la nadando livre nos sonhos; flutuando no mais profundo dos teus sentimentos, vivenciando a independência única do seu ser; os momentos de brilho solitário de tua estrela, e sem sentimento de culpa, usar do direito de sentir prazer em teu universo interior, onde ninguém pode alcança-la. Não tenha medo, aqui não traímos e nem somos traídos. Existimos e não existimos ao mesmo tempo, somos encantados sinais extra-sensórios ocupando corpos, vagando no espaço cósmico dos relacionamentos. Sei que estais disposta a me conquistar; a quebrar meu voto sagrado antes do período de acasalamento. Posso ver isso em teus olhos!
A princesa - Sim, Estou disposta a romper com certos costumes de nossas tribos, e te ofereço os meus mimos, que sei que tanto desejas. Pois, se assim não fosse, não me buscaria com teus olhares discretos, e evitaria usar esses maravilhosos galanteios fora do período sagrado.
O encantado - Há certas normas que não podemos violar, princesa. E encantar é uma delas, faz parte do meu mundo. Quero que saiba que todos os nossos movimentos e diálogos na presença desse espelho, um dia serão testemunhados por todas tribos. Espero esteja ciente disto?
A princesa – Estou!
O encantado - E Não te sentis intimidada ?
A princesa - Pelo contrário. Assim esclareceremos as duvidas quanto a sinceridade e a originalidade da prepotência encantadora que tem o nosso nobre encantado, e todos aqueles que se espelham em vossa alteza. Todos verão que os encantados não são invulneráveis aos nossos encantos fora do período de acasalamento, que fora desse período continuam com seus desejos ardentes, e podem até acasalar.
O encantado – Que seja como você quiser. É pra isso que sou líder. E para começar, peço que vá até a outra margem do espelho. Já já nos encontramos e veremos até onde vão as vossas irredutíveis certezas.
A princesa se afasta, caminhando pela beira do espelho d'gua.

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